O mestre do Chamamé, o acordeonista argentino Raúl Barboza, morreu nesta quarta-feira, dia 27 de agosto, aos 87 anos, em seu apartamento na capital francesa, Paris. Ele foi vitimado por um ataque cardíaco e estava enfrentando problemas renais há algum tempo. Raúl nasceu em Buenos Aires, em 22 de junho de 1938, e passou a ser conhecido como o "embaixador do chamamé" ou o “mestre do chamamé” por sua difusão mundial deste ritmo. Com mais de 50 álbuns lançados, ele estabeleceu-se na França em 1987, tornando-se uma referência do gênero na Europa. Ele recebeu prêmios como o Grand Prix Charles Cros e a condecoração Chevalier de l'Ordre des Arts et des Lettres. Raúl Barboza é considerado um dos maiores instrumentistas da Argentina, com grande importância na história do folclore regional e do chamamé.
Após seis anos longe dos palcos de Porto Alegre, Raúl Barboza se apresentou em Porto Alegre, no último dia 5 de agosto, no Teatro Renascença. Ao lado do guitarrista Benjamin Cíprian, Raúl proporcionou uma noite cheia de emoção, tocando os clássicos que fazem do Chamamé uma das mais apaixonantes expressões musicais do Norte da Argentina e do Sul do Brasil. Além de Raúl no acordeon e Benjamin na guitarra a apresentação teve participações especiais do acordeonista Alejandro Brittes, de Elton Saldanha e de João Vitor Nunes, representando a nova geração de acordeonistas do Estado.
Criado em um ambiente musical, Raúl é filho de um dos pioneiros do chamamé em Buenos Aires, Adolfo Barboza, de Curuzucuateño. Quando criança, o menino ganhou de presente do pai um acordeon de duas fileiras (também chamado de gaita-ponto), que rapidamente tocou com maestria, o que lhe rendeu a reputação de criança prodígio no cenário do chamamé. Ainda de calças curtas, apresentou-se com o trio do pai e, em 1950, teve a oportunidade de fazer suas primeiras gravações para "Víctor" com o "Conjunto Correntino Irupe", onde gravou uma obra de Adolfo Barboza, "La Torcaza".
Posteriormente, apresentou-se e gravou com artistas da região litorânea, como Damasio Esquivel. Durante esse período, a Casa Anconetani construiu para ele um acordeon diatônico de quatro fileiras, que se mostrou fundamental para seu desenvolvimento como acordeonista e o ajudou a criar uma nova sonoridade no chamamé. Logo depois, juntou-se ao trio de Julio Luján para formar seu próprio conjunto no final da década de 1950, com o qual realizou suas primeiras apresentações em Buenos Aires e sua primeira turnê por cidades brasileiras. Também realizou suas primeiras gravações solo em discos de 78 RPM para o selo Music Hall.
Paralelamente, desenvolveu uma intensa atividade como músico de estúdio, gravando com artistas do naipe de Polito Castillo, Miguel Codaglio e Las Hermanas Caballero, além de inúmeras gravações com artistas folclóricos. No início da década de 1960, foi convidado pelo pianista e compositor Ariel Ramírez para integrar sua representação artística em um espetáculo musical em um teatro de Buenos Aires chamado "Esto es Folklore", onde sua performance chamou a atenção da direção da gravadora CBS, que o contratou com exclusividade. Junto com Ramírez, também participou dos filmes “Los Inundados” e “Misa Criolla”. Seu primeiro álbum pela CBS, intitulado "Presentando al nuevo ídolo del Litoral", foi lançado em 1964, onde Barboza foi acompanhado pelo violonista José Medina e pelo cantor e violonista Juancito El Peregrino.
Durante 20 anos, Raúl Barboza percorreu os principais palcos da Argentina, Brasil e Paraguai com o seu trio. Ele também fez suas primeiras turnês pela Europa e Japão, tornando-se o primeiro artista do gênero a se apresentar naquele país. Nessa fase da carreira, ele foi acompanhado por músicos como Bartolomé Palermo, Esteban Gatti, Luis Ferreyra, Ramón Chávez, Nicolás Oroño, Raquel Marino, Moral de la Fuente, Mateo Villalba, Octavio Osuna, Choli Soria e Norberto Pereyra, entre outros.
Em 1987, Raúl Barboza radicou-se em Paris, capital da França, onde desenvolveu uma carreira artística que o levou a palcos nos cinco continentes, ao lado de artistas como Mercedes Sosa, Cesária Évora, Bobby McFerrin, Astor Piazzolla, Atahualpa Yupanqui, Eduardo Falu, Richard Galliano, o gaúcho Luiz Carlos Borges e o tenor espanhol José Carreras. O trabalho do músico portenho inclui obras como "Al compás de tu sueño", "Llegando al trotecito", "El estebador", "Bailantas chamameseras", "Noches de canto y campón", "Chamame para mi tristeza" e "Chamigo baile".
Além do Chevalier em Paris, Raulito Barboza recebeu prêmios como o "Konex", o "Grand Prix du Disque Accademie Charles" (França), o "Prêmio pelo Conjunto da Obra" em Cosquín, o "Prêmio SADAIC Francisco Canaro" e o "Prêmio Clarín" de melhor artista do ano em 2005, entre outros.
Com informações do Correio do Povo